Em 1968, com o AI-5, as tensões políticas e a violência inibiram e restringiram de forma mais intensa as atividades intelectuais e artísticas. Sem a UnB, sem um teatro para expressar sua criatividade — a Sala Martins Pena, no Teatro Nacional, era reservada para as agendas oficiais —, a juventude candanga e brasiliense inventava seus espaços de atividades musicais, teatrais e poéticas nas residências, no Elefante Branco, no Colégio Pré-Universitário, na Escola Parque, no Cine Brasília, na geodésica de Sérgio Prado, construída nos jardins da Escola Parque, na 308 Sul, e, quando possível, nos bares.
Em 1974, 10 anos depois do golpe militar, dois fatos sinalizaram o começo de um novo tempo, ainda distante. O general Ernesto Geisel, ao assumir a Presidência da República, em março de 1974, anunciou a famosa "abertura política, lenta, segura e gradual". Nas eleições legislativas de novembro daquele mesmo ano, o MDB — a oposição consentida naquele momento — venceu o pleito com expressiva maioria. Geisel nomeia o engenheiro Elmo Serejo governador de Brasília. Serejo convida o embaixador Wladimir Murtinho para a Secretaria de Educação e Cultura. Murtinho não era um candango qualquer: refinamento, civilização, elegância e cultura. Sinais dos tempos!
O ator João Antônio era assessor de teatro da Fundação Cultural de Brasília (criada por JK, em 1961, e, depois de 1964, Fundação Cultural do DF). Estávamos em 1973, e João sentia a tensão na cidade. Sempre que lhe era oportuno, solicitava ao diretor executivo da Fundação, Ruy Pereira da Silva, que um dos galpões da Novacap, localizados na W3 Sul (508), fosse cedido à Fundação para a realização de atividades culturais (teatro, dança, apresentações musicais, exposições etc.). No primeiro momento, foi criada uma galeria, inaugurada com uma exposição do renomado arquiteto japonês Kenzo Tange, amigo e interlocutor de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Meses depois, duas novas galerias foram inauguradas.
Em 1975, já secretário de Educação e Cultura, Wladimir Murtinho determina a reforma do galpão que ficava ao lado das galerias, transformando-o em um teatro. Nascia o Teatro Galpão, o Galpãozinho! Mauro Bondi, então estudante de arquitetura da UnB, planejou e conduziu as adaptações do local. Com a peça "O homem que enganou o diabo e ainda pediu troco", do jornalista Luiz Gutemberg, com direção de Laís Adene, o Galpãozinho foi inaugurado em 20 de junho de 1975. Com a ação e o trabalho desses personagens edificantes de nossa cidade, a cultura brasiliense teria nova amplitude e significados.
Entravam em cena Iara Pietrovski, Hugo Rodas, Augusto Pontes, Renato Vasconcelos, Cristina Borracha, Nicolas Behr, Humberto Pedrancini, Jota Pingo, Oswaldo Montenegro, Tereza Rollemberg, Alexandre Ribondi, Neio Lúcio, Renato Russo, Cássia Eller e tantos outros que terão seus trabalhos e contribuições para a cultura brasiliense aqui revisitados. Como disse o sempre marcante TT Catalão: "A Quadra 508 Sul é o marco-zero da cultura de Brasília".
Jorge Henrique Cartaxo é jornalista, mestre em História pela Universidade
Paris-Sorbonne, sócio-fundador
do Instituto Histórico do Tocantins,
sócio-correspondente do Instituto
Histórico de Goiás e diretor de
Relações Institucionais do IHG-DF
